Mostrando postagens com marcador todos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador todos. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de abril de 2011

A MORTE - Texto de Jaspers - do Livro "Introdução ao Pensamento Filosófico"

1. Toda vida está posta entre dois parênteses: nascimento e morte. E só o homem tem consciência disso.
O nascimento é fato de que não se tem lembrança. Quem se reconhece existindo tem a impressão de que sempre existiu, de que desperta de um sono sem memória. Ouvir falar do próprio nascimento não estimula qualquer recordação. Pessoa alguma guarda experiência do início de seu existir.
Estamos todos destinados à morte. Ignorando o momento em que ela virá, procedemos como se nunca devesse chegar. Em verdade, vivendo, não acreditamos realmente na morte, embora ela constitua a maior de todas as certezas.
A consciência puramente vital desconhece a morte. É preciso que nos demos conta da morte, para que ela se torne uma realidade para nós. A partir daí, transforma-se a morte em uma situação-limite: aqueles que me são mais caros e eu próprio cessaremos de existir. A resposta a essa situação-limite há de ser encontrada na consciência existencial de mim mesmo.
2. Costumamos dizer: o que nasceu deve morrer. A ciência biológica não se contenta com isso. Gostaria de conhecer o porquê. Sobre que processos vitais repousa tal necessidade? Pensa-se em retardar o processo de envelhecimento e chega-se a cogitar de, controlando os processos vitais que levam à morte (processos que um dia
conheceremos), atingir o ponto de poder manter vivo, pelo tempo que se deseje, tudo quanto haja nascido. Ninguém, entretanto, duvida de que, mesmo prolongando artificialmente a vida por tempo cada vez maior, a morte será, ao fim, inevitável. Como o sexo, a morte faz parte da vida. Um e outra permanecem mistérios ligados à fonte de nossa existência.
3. Tememos a morte. Observe-se, porém, que a morte — o cessar de ser — e o ato de morrer — cujo termo é a morte — provocam angústias muito diversas.
O temor da agonia é temor de sofrimento físico. A agonia não se confunde com a morte. A angústia a que ela dá lugar pode manifestar-se em muitas crises, vindo o paciente a recuperar-se. E poderá ele dizer: “morri várias vezes”. Não obstante, a experiência colhida nessas ocasiões não é a experiência da morte. Todo sofrimento é experimentado por alguém que está vivo. A morte escapa à experiência.
O processo natural de agonia pode desenrolar-se sem sofrimento; há mortes instantâneas. Em tais casos, não há tempo de o fenômeno atingir a consciência. Pode passar despercebido por coincidir com astenia ou com o sono. A medicina tem meios de reduzir os tormentos gerados por doenças fatais. Embora a agonia seja uma realidade psicofísica, é possível que a biologia e a farmacologia venham, de futuro, a permitir que, em todos os casos, a morte se desacompanhe de sofrimento.
Inteiramente diversa é a agonia diante da morte quando esta é concebida como estado que sucede à desaparição da vida. Nenhum médico nos pode livrar dessa angústia; só o pode a filosofia.

sexta-feira, 11 de março de 2011

As meninas-lobo

Na Índia, onde os casos de meninos-lobo foram relativamente numerosos, descobriram-se, em 1920, duas crianç as, Amala e Kamala, vivendo no meio de uma familia de lobos. A primeira tinha um ano e meio e veio a morrer um ano mais tarde. Kamala, de oito anos de idade, viveu até 1929. Não tinham nada de humano e seu comportamento era exatamente semelhante àquele de seus irmãos lobos.
Elas caminhavam de quatro patas apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os pequenos trajetos e sobre as mãos e os pés para os trajetos longos e rápidos.
Eram incapazes de permanecer de pé. Só se alimentavam de carne crua ou podre, comiam e bebiam como os animais, lan ando a cabeça para a frente e lambendo os liquidos. Na institui ão onde foram recolhidas,
passavam o dia acabrunhadas e prostradas numa sombra; eram ativas e ruidosas durante a noite,  procurando fugir e uivando como lobos. Nunca choraram ou riram.
Kamala viveu durante oito anos na instituiÇão que a acolheu, humanizando-se lentamente. Ela necessitou de seis anos para aprender a andar e pouco antes de morrer só tinha um vocabulário de cinqüenta palavras. Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos.
Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente às pessoas que
cuidaram dela e às outras crianÇas com as quais conviveu.
A sua inteligência permitiu-lhe comunicar-se com outros por gestos, inicialmente, e depois por palavras
de um vocabulário rudimentar, aprendendo a executar ordens simples.
(B. Reymond, Le développement social de l'enfant et de 1'adolescent, Bruxelas,Dessart,1965, p.12-14, apud C. Capalbo, Fenomenologia e ciências humanas, Rio de Janeiro, J. Ozon Ed.p. 25-26.)
in: Filosofando: Introdução à Filosofia

Pesquisar este blog